Porto Seguro

Passeio para Coroa Alta: uma experiência antropológica em Porto Seguro

Do dia em que entrei numa barca furada, no sentido figurado. Com direito a ônibus vomitado, axé music anos 90 e várias armadilhas pra turista.
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Há tempos eu não entrava numa roubada como essa. Mas não vou reclamar. Depois de passar um dia que julguei infernal a bordo de uma escuna, entendi que, pelo menos em parte, a culpa era minha em estar ali. Estou falando de um passeio que fiz saindo de Arraial d’Ajuda, com destino ao “Parque Marinho da Coroa Alta”.

Mas como um passeio de barco, nessa bela região do litoral de Santa Cruz de Cabrália, pode ser ruim? Pra quem não pretende ler tudo, só adianto que em certo momento o guia turístico a bordo estava puxando uma  oração evangélica ao som de axé anos 90 .

Índios e turistas dançando juntos no shopping Aldeia Nova Coroa.

Expectativa – O passeio que eu comprei para Santo André

Em Arraial d’Ajuda, fui na agência de turismo que eu já havia feito um bom passeio para as praias de Trancoso. Resolvi repetir. Dessa vez, comprei um passeio para Santo André, uma vila de pescadores que ficou famosa depois de hospedar a Seleção da Alemanha na Copa de 2014.

Saindo de Arraial d’Ajuda na van da agência, atravessei a balsa para Porto Seguro e lá uma outra van levou até Porto Seguro. Aí comecei a jornada nonsense, logo que surgiu o ônibus que me levaria até a balsa de Santa Cruz de Cabrália, onde eu deveria seguir de barco até a tranquila praia de Santo André. Passaria o dia fotografando a vila, bebendo água de coco e mergulhando numa praia paradisíaca. Ledo engano.

O mais perto que cheguei da Praia de Santo André (com zoom)

Realidade – O passeio que eu acabei fazendo para Coroa Alta

A tal van que iria me buscar na balsa em Porto Seguro, na verdade era um ônibus. Vomitado. Janelas abertas numa tentativa vã de dispersar o odor característico. No trajeto até Cabrália, paramos em todos os hotéis. Em vez de 40 minutos, levamos quase três horas dentro do ônibus, contando com uma parada não programada pelo caminho: visitamos o que disseram ser a Aldeia Nova Coroa.

Local de embarque na escuna em Santa Cruz de Cabrália.

Shopping Pataxó

Entendo que o turismo vive de parcerias e provavelmente essa parada rende para os índios Pataxós e agência. O problema foi não avisar antes. Numa oca pra turista ver, os índio expõem artesanatos e depois dançam para os viajantes. E algumas pessoas, da turma do homem branco, se juntam ao ritual. Senti ali o primeiro choque anti-cultural.

Dinheiro colhido. Então um dos índios puxou a primeira reza do dia. Oração cristã. Prova de que a tal primeira missa realizada no Brasil até hoje surte efeito sobre a aculturada comunidade Pataxó. 519 anos depois.

O frenético comércio indígena na oca Pataxó de Nova Coroa.

Dentro do ônibus vomitado

De volta ao futume interior do ônibus, seguimos pela Av. Beira Mar. O guia, que passara todo o trecho anterior batendo boca ao telefone, fez um discurso emocional. O motivo?  Vender capinhas a prova d’água para celulares . Sua propaganda foi tão boa que vendeu as 30 capas levadas pelo ambulante parceiro.

Paramos em mais alguns hotéis, num deles com espera de mais de 10 minutos. Parecia que só eu me incomodava. Mal sabia que o pior estava por vir.

Chegada em Cabrália e embarque na escuna

Santa Cruz de Cabrália é uma simpática cidade histórica, aparentemente muito mal-cuidada e carente de recursos. Metade da população fica à beira do embarque das escunas, vendendo qualquer coisa. E alugando itens pra quem vai a Coroa Alta, como óculos de mergulho e sapato de borracha.

Nesse momento, o guia me disse que eu era o único ali que iria para Santo André. Não entendi nada. Ele me explicou que a praia ficava no caminho da escuna e que eles poderiam desviar até lá para me deixar. Sentindo a confusão do coisa, tive a certeza de que seria esquecido no fim do dia. Então resolvi me juntar ao grupo e embarcar nesse passeio para Coroa Alta.  Que merda que eu fiz .


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Terra à vista! Ou melhor, areia. Quando avistamos Coroa Alta.

Coroa Alta, música alta, altas piadas

Entrei na escuna, até em bom estado, aquele mar todo pele frente, um lindo dia de sol. Não poderia ser ruim, né?

Som na caixa. Com menos de 1 minuto de navegação, alguém liga as caixas de som estouradas no último volume, tocando alguma coisa do axé baiano que fez tanto sucesso nos anos 90. Estava no terraço, então fui pra baixo, pra tentar não ensurdecer. Então eu vi  aquele cara pegar o microfone .

O auto-intitulado guia de turismo do barco. Um sujeito que poderia ser simpático e engraçado, se conseguisse passar pelos menos alguns segundos calado. Obcecado por atenção, ele fazia piadas até durante as músicas. Cantava junto. Berrava. Promovia uma guerra de suposta animação com a outra escuna do passeio.

Isso aqui é Coroa Alta. Você é biólogo? Se não, não faz muito sentido visitar.

Curtindo Coroa Alta em 20 minutos

Depois de cerca de 1 hora (que pareceram 50) ao som de axé,  sertanejo universitário e piadas preconceituosas , chegamos à tal Coroa Alta, uma espécie de ilha formada por resíduos de corais. Até bonitinho. Mas não é um lugar paradisíaco e é preciso tomar uma série de cuidados.

Pra descer do barco, é preciso estar com os pés protegidos, pois tem muitos ouriços e pedras pontudas na região. Ou você pega carona com um bote. Em tese, a intenção em Coroa Alta é observar a vida marinha. Não duvido que seja bonita. Mas, pelo menos nesse passeio, não é possível. O tempo por lá é muito curto. E os locais de observação, devido ao grande número de turistas, ficam mexidos, barrentos. Não dá pra ver nada. E se sobrar algum peixe, ele vai embora com os gritos do guia.

Jesus te ama porque não convive com você

De volta à escuna,  encaramos a segunda reza do dia . Cabe aqui dizer que não sou um anti-cristo. Nasci em família católica, convivo com evangélicos, umbandistas e outras religiões sem problemas. Mas o estado é laico e passeios turísticos também. Mesmo assim o tal guia fez questão de orar, cutucando ateus e católicos durante suas palavras santas.

E tome axé! Entremeado com sertanejo universitário, arrocha e algum ritmo vindo do Pará. Depois, o mesmo guia que promovia isso, reclamava da falta de turistas em Santa Cruz de Cabrália. Alguém precisa explicar pra ele.

Almoço até bom, mas a gente não tinha escolha

Em mais uma parada comercial pelo caminho, certamente uma parceria da agência de turismo, a escuna parou no Restaurante Birimbau. Lugar simpático, entre o mangue e a Mata Atlântica. Comida simples mas honesta, jardim pro pessoal descansar e preço bem acima da média da região.

Tá ruim? Joga lama.

Bora pra casa. Não. Hoje não. Tinha mais uma parada pelo caminho. Navegamos até a última cilada do dia, um lugar chamado Ilha do Sol. Essa ilha, pelo que entendi, é uma loja de doces. Digo cilada porque é obviamente uma parceria com a agência de turismo e imagino que não especificada no itinerário da excursão. Fora isso, apenas uma loja normal, embora cercada de mangues e com um belo jardim.

O guia seguia animado.  Chamou todo mundo pra um banho de lama  lá nessa ilha. Claro que fazendo algumas piadas com a beleza das pessoas, naquele senso de humor brejeiro que cativava os incautos. Seguiram por uma trilha até os tais poços de lama. Segui pro outro lado, tentando me distanciar daquela voz incalável.

Precisa pagar?

As últimas palavras do guia foram pra passar o chapéu. Descobri que apesar dele ter tornado um passeio já ruim ainda pior, ele não era contratado da agência. É um trabalho “voluntário” que ele faz e depois pede a contribuição dos passageiros. Eu geralmente apoio o trabalho de guias, acho importante e contribuo. Não dessa vez. Eu que deveria ter recebido por passar o dia ali sendo torturado. Mas enfim nos livramos dele, que ficou em Cabrália.

Mais um guia e mamilos no ônibus da volta

Caminho de volta para Porto Seguro. Dessa vez pegamos um ônibus melhor e mais limpo. Mas tinha outro guia pra encarar. Diferente do anterior, que era um chato até simpático do jeito dele, esse era um total imbecil. Era ainda mais sexista e homofóbico em suas tentativas de piadas. Passou os primeiros minutos de viagem assediando uma turma de garotas.

Em certo momento, quando eu pensei que nada mais me irritaria naquele dia,  ele chegou e apertou meus mamilos.  Isso aí. Uma pessoa que nunca vi na vida apertou meus mamilos. Um funcionário ou parceiro de uma agência de turismo. Pior não foi apertar. Ele fez isso durante uma tentativa de piada, em que se fazia de gay, fingindo assediar um cara, que estava com a esposa no banco do fundo. Se tinha alguém ali mais incomodado do que eu, era esse casal. Não deram um pio de volta ao guia.

Ah, já ia me esquecendo. Esse mesmo guia de piadas sexistas, cantadas baratas e apertos de mamilos, ainda puxou uma oração evangélica dentro do ônibus, agradecendo pelo lindo dia de sol na paradisíaca Costa do Descobrimento.

O que é ruim pra mim, não é ruim pra todo mundo

Esse breve conto dramático é um relato de viagem real. Aconteceu comigo. Eu não esperava, em pleno ano de 2019, entrar numa cilada dessas. Foi um breve lapso de um dia de preguiça. Logo eu, que prefiro fazer tudo por conta própria, não tava afim de chamar Uber e planejar melhor as coisas, e acabei embarcando nessa excursão.

E como eu falei no início, não reclamo. Não mais. Pra mim, foi realmente uma experiência tenebrosa, o pior passeio turístico que já fiz na vida. Mas eu reparei bem nos outros passageiros e, algo como metade deles, parecia se divertir e não se incomodar com piadas ruins, som alto e música brega.

Por isso é importante ler várias fontes de informação antes de viajar. Só porque eu não gostei, não significa que é ruim pra todo mundo.

Mais dicas de Porto Seguro, Arraial d’Ajuda e região

Se tiver alguma dúvida sobre esse passeio para Coroa Alta, pode perguntar à vontade. Eu vou tentar convencer você a não ir e dar alternativas melhores, mas pergunte. Porque não faltam lugares incríveis para conhecer na Costa do Descobrimento. Por exemplo:

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